Ponte das almas perdidas

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Durante a caminhada, Miguel observava o ambiente ao seu redor. A névoa era densa, permitia somente a visão de seus companheiros, Pablo e Juan, e daquela interminável ponte a qual há meses estavam atravessando.

Sem dormir, sem comer, sem descansar, os três esqueletos trajavam ponchos coloridos e sombreiros de palha, e vagavam a esmo, marchando ininterruptamente com a esperança de encontrar o fim daquela desgastante jornada.

Nenhum deles se lembrava ao certo como aquilo tudo havia começado. A única coisa de que tinham lembrança era daquela intensa caminhada naquele ambiente sem vida. Miguel e Pablo não tinham o costume de trocar muitas palavras ou de compartilhar sentimentos. Somente Juan, o esqueleto mais jovem, fazia isso. Hora ou outra resolvia se manifestar com alguma tentativa de comunicação com os companheiros.

– ¡Miguel, Pablo! ¡Ahí, mira! – disse Juan, apontando para algo bastante insólito. Uma descomunal montanha de comida estava abandonada no meio do percurso. Nachos cobertos por molho de queijo cremoso, tacos com carne picante e pasta de feijão, fontes jorrando tequila. Tudo bem fresquinho, excepcionalmente suculento.

Apesar de não possuírem aparelhos digestório, todos estavam com aquela sensação de estar faminto, pois há muito tempo não mordiscavam alimento algum. A montanha de comida certamente era sedutora e atraente.

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– Ignoren – disse Miguel de forma bastante ríspida. – Es una trampa. Nós, muertos, no necesitamos comida.

Então os três companheiros seguiram em frente. Novamente, o silêncio entre eles se perdurou. Miguel era o mais experiente e sábio entre os três. Teve uma vida difícil, era um exímio trabalhador. Mas tudo o que construiu durante os anos se despedaçou após uma grande decepção amorosa, que o guiou para o encerramento de sua vida.

Mais adiante, outra visão bastante intrigante surpreendeu os viajantes.

– ¡Miguel, Pablo! ¡Ahí, mira! – disse Juan, apontando para uma pilha enorme de dinheiro e joias que estava largada no meio do caminho. Várias barras de ouro, diamantes e incontáveis pesos mexicanos brilhavam com vigor, quase engolindo aqueles que observavam.

Se Pablo ainda tivesse globos oculares, seus olhos agora estariam arregalados. Durante sua vida inteira havia sido um escritor mal sucedido e nunca alcançou o estado financeiro que almejava. Sempre sonhara que suas obras lhe dessem o retorno financeiro de que ele almejava, para que pudesse ter um pouco de luxo.

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– Ignoren – disse Miguel novamente – Es una trampa. Nós, muertos, no necesitamos dinero.

De início, Pablo relutou-se e demorou para aceitar aquela ordem. Mas Miguel tinha razão. Mesmo possuindo uma montanha de dinheiro, onde eles poderiam gastá-la agora que estavam mortos? Não havia mercadores, objetos à venda, ou qualquer tipo de serviço sendo ofertado no submundo. Então, os três continuaram viagem.

Ainda mais adiante, novamente o destino brincou com os caminhantes daquela ponte.

– Miguel, Pablo! Ahí, mira! – disse Juan, apontando para dois homens de terno, ambos muito formosos. Exuberantes de fato. Tratava-se de Rubem e Gustavo, dois ex-colegas de Pablo, exímios escritores, com habilidades inigualáveis, ganhadores de vários prêmios e conquistas literárias. Pablo sempre desejou estar no pódio como aqueles heróis, mas suas obras, apesar de boas, nunca foram muito reconhecidas.

Ao invés de admirá-los, Pablo os enojava. A visão daqueles homens de sucesso poderia fazê-lo vomitar, caso possuísse um estômago. Talvez seja pelo tédio extremo de estar há uma infinidade de dias caminhando sem rumo, ou pelo simples fato de ter perdido parte de sua humanidade, mas Pablo não teve escrúpulos ao meter repentinamente um soco na boca de Gustavo, afundando todos os seus dentes, seguindo a selvageria com uma cotovelada no supercílio de Rubem e um belo chute entre suas pernas.

– ¡PABLO! – gritou Miguel, desesperado – ¿Perdiste el juicio?

Antes que Miguel pudesse intervir, ou antes mesmo que Pablo pudesse se dar conta do que havia feito naquele momento de fúria, duas monstruosas e misteriosas criaturas surgiram subitamente. Uma delas era um ser extremamente forte, com três metros e meio de altura, todo vermelho e com cabeça de javali. As veias no braço do monstro quase saltavam para fora e uma baforada de fumaça saia por suas narinas, passando por seu piercing dourado em forma de argola em seu nariz. A outra criatura era uma serpente grotesca, do tamanho de uma caminhonete, com pele pegajosa e asas no dorso. Apesar de não ser tão alta quanto outro monstro, seu corpo era mais extenso. Não possuía pernas, mas sua pele verde e escamosa era viscosa, auxiliando na sua movimentação na hora de rastejar.

As criaturas encararam Pablo durante algum momento. Paralisado de medo, não conseguia nem sequer gritar. Os corpos de Gustavo e Rubem se dissolveram no chão e se mostraram ser apenas ilusões. Miguel sacou na hora o que estava ocorrendo. Tratava-se de mais uma armadilha.

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– ¡PABLO! – gritou Miguel – ¡CORRA!

Não houve tempo para qualquer tentativa de fuga. Os dois monstros puniram Pablo de forma impiedosa. Com muita agressividade, executaram vários golpes, dentadas e, para finalizar, devoraram cada osso de seu corpo. Mesmo não possuindo pulmões, Pablo gritou com todas as suas forças antes de, por fim, ser completamente devorado.

Miguel e Juan ficaram tão assustados que correram o máximo que puderam para bem longe daquela insanidade. Enquanto os dois corriam com suas pernas esqueléticas, as criaturas monstruosas se desentenderam e deram início a uma batalha colossal. Aparentemente aqueles monstros não se davam muito bem entre si.

A caminhada, que já estava se desenrolando com um silêncio arrebatador, ficou ainda mais calada. Juan mergulhou seus pensamentos dentro de terrores internos. Sempre se sentiu um inútil durante a vida. Nunca conseguiu se manter por muito tempo num mesmo emprego pois era displicente e preguiçoso para realizar as tarefas exigidas. Não tinha diploma de ensino médio, pois largara a escola durante a adolescência. Assim ficava difícil arrumar um trabalho que lhe agradasse.

Dias se passaram. Talvez semanas. Talvez meses. Era impossível de saber, pois naquele lugar não havia luz e escuridão que regessem os céus. O ar estava sempre enevoado, de forma tão intensa que impossibilitava a visão da paisagem além da ponte. Juan, desesperançoso com aquela caminhada que nunca terminava, estava prestes a desistir:

– Miguel… Ya no aguanto más – disse, com voz sonolenta. – Nos vamos a rendir.

– No, no – respondeu Miguel, persistente. – No vamos a desistir de esta lucha.

Quando Miguel olhou para seu amigo, vislumbrou uma cena aterradora. Um monstro peludo, com braços longos, pernas necrosadas, garras enormes e com cabeça de bicho-preguiça estava agarrado nas pernas de Juan. Seu corpo era comprido e movia-se de forma bastante estranha, pois apesar de possuir pernas, não as utilizava, e andava arrastando-se pelo chão com impulso dos braços e chacoalhando todo o seu corpo desengonçado. Juan estava num estado catatônico, sem nem ao menos perceber a criatura que o debilitava.

– ¡JUAN! – gritou Miguel. – Caray, ¿qué es eso?

Juan não estava escutando. Seu único desejo agora era dormir. Estava demasiadamente cansado, sem energias para continuar com a jornada. Assim que seu corpo tombou, o monstro-bicho-preguiça abriu sua imensa boca, repleta de dentes afiados, e o engoliu num único bocado.

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Miguel ficou tão assustado que, mais uma vez, correu o máximo que podia, para bem longe daquela monstruosidade. Agora estava sozinho em sua jornada. Talvez devesse desistir. Passou algumas horas ponderando sobre o que realmente deveria fazer. “Tempo” era um luxo que ele possuía de forma ilimitada, já que seu corpo putrefato não mais envelhecia.

O esqueleto lutava para buscar algum pensamento que desse sentido para àquela intensa prova pela qual estava passando. Tirou do bolso um pingente com formato de cruz, todo surrado, que já nem se lembrava mais que ali estava. Olhou intrigado e boas lembranças vieram à sua mente. Quem havia lhe dado aquilo fora Maria Fernanda, a pessoa que mais amou durante a vida. Ao se lembrar dos erros tolos e da forma estúpida como ele a perdeu, tentou chorar, mas não possuía canais lacrimais para produzir lágrimas. Então apenas guardou o pingente de volta ao bolso e retornou à caminhada.

O tempo passou novamente de forma indefinida. Agora, contudo, Miguel estava sentindo-se estranhamente confiante. Andava de peito estufado e cabeça erguida, acreditando que superaria qualquer tipo de adversidade. Topou com mais uma montanha de comida suculenta largada no meio do trajeto. Quase morreu de rir – como se já não estivesse morto – perguntando-se o quão tolos são os lacaios do submundo por impelir ciladas tão estúpidas em sua direção. Sentia-se superior a Pablo e Juan, que foram tão tolos e inconsequentes. Pablo com aquele temperamento forte, que permitia que desejos e sentimentos falassem mais altos que a razão. E Juan, que possuía baixa auto estima e era preguiçoso, desanimando ao encarar qualquer tipo de desafio. Mas Miguel era diferente, nada o pegaria.

– Fim da linha, muchacho.

Miguel virou-se e se deparou com outra sinistra criatura. Desta vez era um estarrecedor tigre bípede, extremamente musculoso, com três metros de altura, carregando uma pesadíssima marreta em sua mão. Sua postura formosa impressionava qualquer um, com peito ereto, cauda esticada, braços firmes empunhando sua arma exageradamente grande. Sua pele laranja e cintilante ressalva as listras pretas que percorriam o seu corpo como se fossem pinceladas espalhadas por uma linda pintura.

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– ¿Quien eres tu, cabrón? – espantou-se Miguel.

– Sou o Guardião da Soberba, o mais poderoso de todos os Sete. Estou aqui para demonstrar o quanto eu adoro esmagar “cucarachas” como você, “mi amigo”!

O tigre deu um gigantesco salto por cima da cabeça de Miguel e aterrissou do outro lado do caminho, impedindo o avanço na ponte.

– Gostou? – perguntou o tigre, orgulhoso de si mesmo. – É o pulo mais alto de todo o submundo.

Miguel recuou. Correu em disparada e escondeu-se em meio à montanha de comida. Amedrontado, retirou o pingente de Maria Fernanda do bolso e fez orações para Nossa Senhora de Guadalupe. Procurou acalmar os nervos. Aproveitando que estava envolto de saborosas comidas, acabou devorando uma porção de nachos com guacamole e tomou uma boa dose de absinto. Comia compulsivamente. Seu apetite era insaciável.

Assim, um raio púrpura caiu muito próximo a ele, interrompendo sua refeição. Um elefante roxo, do tamanho de um ônibus e com o corpo todo deformado, parecendo um dirigível, surgiu em sua frente. O couro de sua pele era duríssimo e suas bochechas, assim como todo o seu corpo, pareciam inchadas, como se fossem explodir. Era mais uma daquelas criaturas amedrontadoras.

– Guardião da Gula! – surpreendeu-se o tigre. – Saia do caminho. Sabes muito bem que sou superior a você. Apenas eu mereço devorar essa “cucaracha”!

O elefante lançou-lhe um olhar de desaprovação. Após se encarar durante alguns segundos, os dois iniciaram uma épica batalha. Miguel não ficou para assistir. Correu o mais rápido que pôde para longe daquela confusão.

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Pela última vez, o tempo passou de forma misteriosa e indefinida. Agora Miguel tomava cuidado para não sentir-se confiante demais ou demasiadamente orgulhoso de si mesmo, com medo que o Guardião da Soberba retornasse. Por um momento, durante o trajeto, se sentiu frustrado e quase descontou sua ira numa outra montanha de dinheiro que surgiu em meio a seu caminho. Mas logo se deu conta do perigo. Respirou bem fundo e se acalmou, conseguindo evitar o monstro com cabeça de javali, Guardião da Ira.

Finalmente, após todo aquele imenso sacrifício, Miguel encontrou o final da ponte. Ainda estava um pouco longe, mas agora estava a um alcance em que os olhos podiam ver. Ansioso, correu com todas as suas forças. Devido à ausência de músculo em suas pernas, o pobre esqueleto corria de forma desengonçada e pouco eficiente, até que tropeçou e caiu de cara no chão.

Uma mão se estendeu para lhe ajudar a levantar. Era Maria Fernanda, a mulher mais encantadora que já conheceu em toda sua vida. Cabelo escuro, olhos claros, magra e pequena. Só de olhar Miguel já se derretia por completo. Ele não possuía mais um coração, mas dava para sentir algo inexplicável explodindo dentro de seu peito. Também não possuía língua, mas mesmo assim, beijou-a da forma como só uma caveira sabe.

Por um momento, Miguel esqueceu-se da ponte. Esqueceu-se dos companheiros que morreram nas mãos de monstros bizarros. Esqueceu-se do mundo ao seu redor. Tudo o que ele queria agora era uma segunda chance com Maria Fernanda. Queria aproveitá-la o máximo possível, por uma última vez.

Com isso, surgiu a criatura mais aterradora de todas as sete. Possuía várias cabeças, de vários animais diferentes. Um lobo, um bode, um touro e um dragão. E possuía várias patas, algumas de aves, outras de répteis e algumas com pelos. A imagem de Maria Fernanda se dissolveu, fazendo com que Miguel ficasse de joelhos diante àquela ilusão.

– ¡Por favor! – implorou Miguel. – ¡Yo estoy muy cerca!

A criatura não lhe deu ouvidos. Apenas encerrou sua jornada. Miguel foi devorado pelo Guardião da Luxúria.

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Créditos:

História: Thales Soares

Ilustrações: Marcio Lucas

6 comentários em “Ponte das almas perdidas

  1. Logo no início me lembrei do filme Viva e no decorrer da leitura da série Sete Pecados Capitais. Ficou bem legal o conto e as ilustrações estão ótimas.

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  2. Patricia Monteiro 27 de março de 2019 — 08:13

    Excelente conto, fiquei ligada na história do começo ao fim. Uma bela metáfora de como as ilusões terrenas podem nos desviar de nossa felicidade. Parabéns pela escrita!

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  3. Conto muito bem escrito, aguçando nossa curiosidade para saber como vai se desenrolar. Adorei as gravuras, são suas também?

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  4. Olá 🙂
    Uau eu amei o texto, muito diferente do que normalmente leio, bem legal a forma como foi abordado os sete pecados. Confesso que até torci para que Miguel conseguisse completar a sua jornada kkkkkkkk… As ilustrações estão incríveis, gostei muito.
    ótima quinta

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  5. Olá! Que texto super gostoso de ler. Ia ficando cada vez mais curiosa com o desenrolar dos acontecimentos. E amando as ilustrações. Fora que me lembrou uma tirinha que vi muitos anos atrás sobre tentações que entram em nosso caminho e que podem destruir nossas vidas – nesse caso, morte. Achei muito legal mesmo, parabéns. Beijos

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  6. Amei o conto, você escreve muito bem e as ilustrações combinaram perfeitamente.

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